O Setembro Amarelo pode ser mais do que uma campanha que retorna ao calendário todos os anos. É uma oportunidade para olhar com atenção para o sofrimento psíquico, que muitas vezes, permanece escondido por trás da rotina, das responsabilidades e das aparências. O suicídio é um fenômeno complexo e não pode ser explicado por uma causa isolada, pois diferentes fatores psicológicos, sociais, ambientais e relacionados à saúde podem se combinar (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE). Por isso, prevenir exige abandonar respostas simplistas e considerar a história e as circunstâncias de cada pessoa. Mais do que procurar uma explicação única, é necessário compreender situações de vulnerabilidade e favorecer condições para que o sofrimento seja reconhecido, acolhido e acompanhado com respeito, cuidado, responsabilidade e atenção, sem julgamentos.
Esse cuidado precisa acontecer em diferentes espaços e momentos da vida, antes que uma situação alcance maior gravidade. Relações de confiança, família, comunidade e profissionais preparados podem contribuir para que mudanças importantes sejam percebidas e recebam atenção adequada. A qualidade desse cuidado também depende da preparação dos serviços e dos profissionais, que podem encontrar dificuldades para reconhecer e acompanhar situações relacionadas ao comportamento suicida (PIMENTA). Pesquisas indicam ainda que estratégias integradas ao atendimento em saúde podem reduzir comportamentos suicidas, especialmente quando o cuidado é articulado e contínuo (KO). Essa perspectiva amplia a prevenção, deixando de ser apenas uma resposta à crise e passa a envolver acompanhamento, vínculo, escuta e atenção ao sofrimento de forma consistente ao longo do tempo.
Quando o sofrimento se intensifica ou surgem pensamentos relacionados à própria morte, a busca por avaliação profissional torna-se especialmente importante. Psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais de saúde, podem avaliar e indicar formas de acompanhamento adequadas. Em momentos de risco imediato é necessário procurar um serviço de emergência ou acionar o atendimento de urgência disponível onde a pessoa estiver. Revisões acadêmicas recentes também apontam que intervenções breves realizadas em contextos de atenção primária podem ser úteis no manejo da ideação suicida, embora a escolha do cuidado deva considerar cada situação individual (YOUNESI). Prevenir não significa prever quem estará em risco, mas ampliar possibilidades de cuidado, fortalecer vínculos e reduzir o isolamento. É aprender a reconhecer o sofrimento antes que ele seja silenciado.
Referências:
KO, WOOLIM; JEONG, HYUNSUK; YIM, HYEON WOO; LEE, SEUNG-YUP. Intervenções de cuidado colaborativo para reduzir o comportamento suicida entre pacientes com depressão ou em risco de suicídio na atenção primária: revisão sistemática e meta-análise. Journal of Affective Disorders, 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Suicídio. Causas multifatoriais, envolvendo aspectos sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais ao longo da vida. Genebra, 2025.
PIMENTA, LUZIA FERNANDA DE ANDRADE; BRITO, ANDIARA ARAÚJO CUNEGUNDES DE; LIMA, ANA IZABEL OLIVEIRA; SANTOS, PAULA FERNANDA BRANDÃO BATISTA DOS. Prevenção ao suicídio na Atenção Primária, na percepção de profissionais de saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 2024.
YOUNESI, PUYA; HAAS, CAROLIN; DREISCHULTE, TOBIAS; SCHMITT, ANDREA; GENSICHEN, JOCHEN; LUKASCHEK, KAROLINE; POKAL-GROUP. Intervenções breves para ideação suicida na atenção primária: uma revisão sistemática. BMC Primary Care, artigo 167, 2025.



