A Inteligência Artificial (IA) começou a ocupar um espaço tradicionalmente reservado às relações interpessoais, como a busca por companhia, escuta e afeto. Atualmente, pessoas interagem diariamente com personas virtuais, compartilham vulnerabilidades e constroem vínculos afetivos similares a amizades ou relacionamentos amorosos. A disponibilidade ininterrupta, as respostas altamente personalizadas e a ausência do risco de rejeição, tornam essa convivência virtual atrativa, fazendo com que esses laços adquiram forte peso emocional (SKJUVE; BRANDTZÆG). O ponto crítico não reside no ato de conversar com uma IA, mas em identificar quando essa interação deixa de ser um recurso complementar e passa a substituir a convivência humana.

Essa dinâmica exige atenção redobrada quando envolve crianças e adolescentes, fases em que a identidade, a autoestima e as competências socioemocionais estão em pleno desenvolvimento. O aprendizado social depende do confronto com a diversidade, da frustração diante do “não”, do respeito a limites e da resolução ativa de conflitos. Embora a IA ofereça uma interlocução confortável, previsível e sem atritos, ela não replica as exigências pedagógicas de uma relação real. Conforme apontam SUN, WANG e MCDANIEL, se por um lado companheiros virtuais podem auxiliar adolescentes na expressão inicial de sentimentos, por outro correm o risco de ocupar o tempo do convívio presencial, induzir dependência emocional e forjar expectativas irrealistas sobre amizade e amor.

Em adultos, o uso de chatbots afetivos pode servir de suporte temporário contra a solidão ou como espaço seguro para elaboração de sentimentos (BRANDTZÆG). O prejuízo ocorre quando o vínculo substitui amigos, familiares ou parceiros reais. Ao optar por uma relação que não exige paciência, negociação nem reciprocidade real, o indivíduo tende ao isolamento social (DEPOUNTI). Em suma, a tecnologia pode funcionar como ferramenta de suporte interpessoal, contudo, não deve substituir a presença humana, sobretudo na infância e na adolescência, quando as interações interpessoais reais são indispensáveis para a maturação psíquica e social.

Referências:

BRANDTZÆG, P. B. Meu Amigo IA: Como os Usuários Experienciam Bots Sociais. Pesquisa em Comunicação Humana, 2022.

DEPOUNTI, I. Tecnologias Ideais, Relacionamentos Ideais? Examinando Chatbots Companheiros de IA e Conexões Humano-Humano. Trabalhos Selecionados de Pesquisa na Internet da AoIR, 2023.

SKJUVE, M. Meu Amigo IA: Como os Usuários Experienciam Bots Sociais. Interagindo com Computadores, 2021.

SUN, X.; WANG, Y.; MCDANIEL, B. T. Companheiros de IA e Relacionamentos Sociais na Adolescência: Benefícios, Riscos e Influências Bidirecionais. Perspectivas no Desenvolvimento Infantil, 2026.