Para entender por que algumas pessoas perdem o controle sobre o jogo, é preciso primeiro compreender como o cérebro reage à possibilidade de ganhar algo. Segundo Clark, Boileau e Zack, sempre que vivenciamos algo prazeroso ou promissor, como uma vitória inesperada, um sistema interno de recompensa é ativado, liberando dopamina, substância associada à motivação e ao prazer. Esse sistema evoluiu para nos impulsionar a buscar o que é bom para a sobrevivência, mas reage de forma ainda mais intensa diante da incerteza, quando não se sabe se uma recompensa vai ocorrer. A resposta dopaminérgica durante a espera costuma ser maior do que diante de um resultado previsível. É essa combinação entre ganho possível e incerteza que torna o jogo tão estimulante para o cérebro.

Esse funcionamento ajuda a explicar por que apostar pode se tornar difícil de abandonar e por que isso não tem relação com fraqueza ou falta de esforço pessoal. Clark, Boileau e Zack apontam que a repetição das apostas pode deixar o cérebro menos sensível a prazeres cotidianos, fazendo com que a pessoa precise apostar cada vez mais para sentir o mesmo estímulo, um processo biológico, não uma escolha consciente. Somam-se a isso pensamentos distorcidos, como acreditar que uma sequência de perdas antecipa uma vitória e a dificuldade real de regular emoções como ansiedade e frustração sem recorrer ao jogo. É por essa combinação de fatores cerebrais, cognitivos e emocionais que o DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION) e a CID-11 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE) classificam o transtorno do jogo como uma condição aditiva e não como um problema de caráter.

Ainda neste contexto, a expansão das apostas esportivas online (bets), aprofundou esse desafio.  Hoje, apostar não depende de sair de casa e nem de horário, basta o celular. Essa disponibilidade constante, somada à publicidade agressiva do setor, transforma a exposição ao jogo em algo praticamente permanente. A Organização Mundial da Saúde trata os danos ligados ao jogo como questão de saúde pública. O tratamento deve respeitar a história de cada pessoa. Pfund et al. mostram que a terapia cognitivo-comportamental apresenta resultados positivos na redução da gravidade do transtorno, podendo ser associada, quando necessário, a medicamentos prescritos por um médico. No Brasil, o Ministério da Saúde orienta esse cuidado pela Rede de Atenção Psicossocial, com apoio de familiares e grupos de ajuda.

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Linha de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.

CLARK, L.; BOILEAU, I.; ZACK, M. Neuroimagem dos mecanismos de recompensa no transtorno do jogo: uma revisão integrativa. Molecular Psychiatry, 2019.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Descrições clínicas e requisitos diagnósticos para os transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento da CID-11. Genebra: World Health Organization, 2024.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Jogos de azar. Genebra: World Health Organization, 2024.

PFUND, R. A. et al. Efeito das técnicas cognitivo-comportamentais no jogo problemático e no transtorno do jogo: uma revisão sistemática e metanálise. Addiction,  2023.