Datas Comemorativas e Redes Sociais: a Vida em Exibição

Entre viver e mostrar

A organização da vida contemporânea em torno de datas comemorativas tem se intensificado, convertendo momentos simbólicos em obrigações emocionais e sociais. Feriados, aniversários e períodos festivos passaram a exigir não apenas vivência, mas comprovação pública de felicidade, descanso e realização. Do ponto de vista psicológico, esse processo está profundamente associado à lógica das redes sociais, que reforçam a necessidade de exposição constante. Viver deixa de ser suficiente, é preciso mostrar que se vive bem. Essa dinâmica cria padrões normativos de comportamento e sucesso, nos quais o indivíduo se sente pressionado a corresponder a expectativas externas (BAUMAN). A comparação social contínua favorece sentimentos de inadequação, ansiedade e frustração, especialmente quando a experiência real não corresponde à imagem idealizada divulgada.

A exigência de registrar viagens, celebrações e encontros nas redes sociais, transforma experiências subjetivas em performances públicas. Psicologicamente, essa necessidade de validação externa pode fragilizar a construção da autoestima, que passa a depender da aprovação do outro. Datas comemorativas, nesse contexto, funcionam como gatilhos de cobrança emocional, pois carregam a expectativa de conteúdos “publicáveis”. A ausência de viagens, festas ou registros visuais pode gerar sensação de fracasso pessoal e exclusão social. Além disso, a cultura da positividade imposta pelas redes contribui para a negação de emoções legítimas, como tristeza ou cansaço, reforçando o esgotamento mental (HAN). O sujeito aprende que não basta sentir, é preciso aparentar.

Estudos indicam que a centralidade do consumo simbólico e da visibilidade social está associada à redução do bem-estar psicológico. A busca constante por experiências dignas de exposição desloca o valor do cotidiano e das relações simples, fundamentais para a saúde mental. Quando a vida é vivida em função de datas futuras e da produção de imagens, o presente perde significado, favorecendo estados de insatisfação crônica (KASSER). Desenvolver uma relação mais crítica com o tempo e com as redes sociais permite resgatar a autonomia emocional. Reconhecer que nem toda experiência precisa ser exibida é essencial para promover equilíbrio psíquico e autenticidade nas relações (RYAN).

Referências:

BAUMAN, ZYGMUNT. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

HAN, BYUNG-CHUL. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2022.

KASSER, TIM. O alto preço do materialismo. São Paulo: Ideias & Letras, 2016.

RYAN, RICHARD M.; DECI, EDWARD L. Autodeterminação e bem-estar. Porto Alegre: Penso, 2020.