Entre amor e dependência
As relações humanas exercem papel fundamental no desenvolvimento psicológico e social do indivíduo, uma vez que o ser humano é essencialmente relacional. Desde a infância, os vínculos estabelecidos com figuras significativas contribuem para a formação da identidade, da autoestima e da capacidade de interação social. A convivência com outros indivíduos possibilita a organização dos sistemas sociais e a construção de normas que sustentam a vida em comunidade. Contudo, quando as relações interpessoais apresentam desequilíbrios, podem comprometer o bem-estar emocional e a autonomia dos sujeitos envolvidos. Relacionamentos considerados saudáveis são aqueles que favorecem o respeito às individualidades, a liberdade emocional e a corresponsabilidade afetiva. Em contrapartida, vínculos marcados por controle excessivo e medo da perda tendem a gerar sofrimento psíquico significativo (BOWLBY).
A dependência emocional caracteriza-se por um padrão relacional no qual o indivíduo deposita no outro a responsabilidade por seu equilíbrio emocional, demonstrando intenso medo do abandono e dificuldade de manter autonomia afetiva. Nesses casos, a pessoa acredita não ser capaz de existir ou se sentir segura sem a presença constante do parceiro, amigo ou familiar. Esse funcionamento leva à renúncia de desejos, valores e identidade própria, com o objetivo de preservar o vínculo a qualquer custo. Tal dinâmica favorece relações conflituosas, muitas vezes permeadas por submissão, insegurança e baixa autoestima. A dependência emocional não é classificada isoladamente como um transtorno, mas está associada a quadros de ansiedade, depressão e dificuldades de regulação emocional (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA).
Entre os principais sinais da dependência emocional destacam-se comportamentos de submissão, medo intenso da solidão, dificuldade em tomar decisões, sensação de vazio emocional e baixa tolerância à frustração. Também podem surgir sintomas semelhantes à abstinência diante do afastamento do outro, reforçando o ciclo de sofrimento psíquico. Frequentemente, pessoas dependentes buscam atendimento psicológico devido a sintomas secundários, sem reconhecer que a origem do sofrimento está no padrão relacional estabelecido. O acompanhamento psicológico é essencial para promover o fortalecimento da autoestima, o resgate da identidade e o desenvolvimento da autonomia emocional. A conscientização do problema representa o primeiro passo para a mudança, possibilitando relações mais saudáveis e equilibradas ao longo da vida (COSTA; FALCÃO).
Referências:
ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
BOWLBY, JOHN. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
COSTA, MARIANA TEIXEIRA; FALCÃO, LUCIANA SILVA. Dependência emocional e autoestima em relacionamentos afetivos. Revista Psicologia em Estudo, Maringá, 2021.
SILVA, RENATA ALVES; SOUZA, FELIPE NOGUEIRA. Vínculos afetivos, autonomia emocional e sofrimento psíquico. Revista Brasileira de Psicologia, São Paulo, 2020.