Desastres Naturais e os Impactos na Saúde Mental

Desastres e sofrimento psíquico

Os desastres naturais mais recentes evidenciam o agravamento dos efeitos do aquecimento global em escala mundial. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, os incêndios florestais no Chile, o terremoto na Península de Noto, no Japão, além das ondas de calor extremo e chuvas intensas registradas na Europa e no Brasil, ilustram a intensificação desses eventos. De acordo com o IPCC (2023), o aumento da temperatura média global contribui diretamente para a maior frequência e severidade de fenômenos climáticos extremos. Para além dos danos físicos e econômicos, essas ocorrências afetam profundamente a saúde mental das populações atingidas. A perda de moradias, o deslocamento forçado e a sensação constante de insegurança geram sofrimento psicológico coletivo, ampliando sentimentos de medo, ansiedade e vulnerabilidade social (NOAL).

As reações emocionais diante de desastres naturais variam conforme fatores individuais, sociais e contextuais, como o grau de exposição, a intensidade do evento, as perdas vivenciadas e a presença de apoio social. Não existe uma resposta psicológica única, pois cada pessoa elabora o trauma de forma singular e em tempos diferentes (ALVES). Entre as vítimas diretas, são comuns manifestações como choque, tristeza profunda, raiva e culpa, podendo evoluir para transtornos de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Indivíduos indiretamente afetados, como aqueles que acompanham as tragédias pela mídia ou possuem vínculos com vítimas, também podem apresentar sofrimento emocional significativo. Segundo a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (2023), os impactos psicológicos das mudanças climáticas representam um desafio crescente à saúde pública global.

Diante desse contexto, torna-se essencial fortalecer estratégias de cuidado psicológico em situações de desastres naturais associados às mudanças climáticas. A atuação dos profissionais de psicologia é fundamental na avaliação do impacto emocional, no acolhimento do luto e na promoção da adaptação e da resiliência comunitária. Intervenções como os primeiros socorros psicológicos, atendimentos individuais e ações grupais contribuem para a redução do sofrimento e a prevenção de agravos à saúde mental (FIOCRUZ, 2022). Além disso, as redes de apoio social como família, comunidade e instituições locais, desempenham papel decisivo na recuperação emocional das populações afetadas. A integração entre políticas ambientais, planejamento de riscos e ações em saúde mental é indispensável para enfrentar os desafios impostos pelo aquecimento global.

Referências:

ALVES, E. G. R.; OLIVEIRA, D. R. Psicologia da gestão integral de riscos e desastres. In: GÜNTHER, W. R.; CICCOTTI, L.; RODRIGUES, A. C. Desastres: múltiplas abordagens e desafios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

FIOCRUZ. Saúde mental e atenção psicossocial em emergências e desastres. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2022.

IPCC. Relatório de Avaliação AR6: Relatório de Síntese. Genebra: Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, 2023.

NOAL, D. S.; FREITAS, C. M. Caminhos e contribuições da atenção psicossocial em situações de desastres no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.